Lívia

Fui criada com a ideia de que ficar de pijama sem sutiã ou até mesmo ficar de sutiã e calcinha na frente de familiares homens era completamente desrespeitoso. Desrespeitoso por que? Não sabia que o corpo humano é capaz de desrespeitar alguém. O que tem de tão ofensivo? Seria desrespeito ou a cabeça das pessoas que tornou nosso corpo, nossa natureza, em algo completamente sexual e ofensivo, a ponto da gente ser acusada de desrespeito apenas por ter o corpo que tem? Engraçado. Os homens podem ficar de cueca, samba cançao, sunga, sem camisa e não tem problema? “Ah, mas eles são homens, tudo bem né” Cadê a lógica? Desrespeito é eu ser obrigada a usar um tão desconfortável sutiã dentro de casa pra não causar constrangimento. O problema tá em quem fica constrangido, porra! Fora da cena familiar, sair sem sutiã na rua é outro drama. “Vulgar” “Essa ai ta querendo” “Que peitao” “Porque é exatamente isso. Parabens, homens, vocês sabem interpretar. Eu não saí sem sutiã de casa porque é desconfortável ou porque eu não tava afim. Eu saí de casa sem sutiã pra chamar a atenção de vocês. Porque meu mundo gira em torno de fazer coisas pra agradar os homens.” Tô cansada de ter que lidar com esse pensamento. Tô mais cansada ainda de me sentir indefesa por sentir medo.

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Uma parente minha é professora e ela estava contando que, nas reuniões escolares, eles julgam as atitudes das crianças baseados no tipo de mãe que elas têm, se é “mãe ajuizada” ou “desajuizada”. Perguntei se eles nunca questionavam o tipo de pai que a criança tinha, ela disse que criar o filho é responsabilidade da mãe.

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Eu devia ter uns sete anos e estava lendo para o meu irmãozinho, quatro anos mais novo, enquanto ele fazia cocô. Ele me interrompeu dizendo: “acabei, me limpa.” Respondi “eu não, eca! por que eu???” e ele respondeu, muito naturalmente: “porque você é mulher”. Chamei minha mãe pra resolver a situação e essa história corre até hoje pela minha família, todo mundo achando engraçadinho.

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Eu era professora em um programa para jovens aprendizes, e fazia sempre questão de discutir questões de gênero na sala de aula. Um dia, em uma turma nova, estávamos falando sobre o preconceito que mulheres sofrem no trânsito, contei que demorei seis anos pra tentar tirar carteira mas que, quando tentei, consegui de primeira. Um dos meus alunos levantou a mão e perguntou “quanto foi o suborno?”. Alguns outros esboçaram risadas mas pararam assim que viram a minha expressão. O menino imediatamente pediu desculpas, dizendo que estava brincando. Eu respondi que eu era segura o suficiente pra não me sentir ofendida por um comentário tão parvo, mas que esse tipo de pensamento era inadmissível, tanto em seu conteúdo quanto na premissa de que se pode dizer o que bem entender com a desculpa de ser brincadeira. Acabou que o comentário infeliz gerou uma discussão muito produtiva na turma.

Lívia

Eu estava passeando em Budapeste com duas amigas no mês passado, à noite, andando pela calçada. Um cara que estava com alguns amigos em um bar deu um passo pra trás e esbarrou em mim, pisando no meu pé. Ele se virou pra mim rindo e disse alguma coisa que eu não entendi, porque eu não falo nada de húngaro. Não parecia um pedido de desculpas, ele não parecia nem um pouco preocupado em ter me machucado, mas mesmo assim eu dei um sorrisinho amarelo de ‘tá tudo bem’ e continuei andando. Aí o cara simplesmente deu um tapa na minha bunda. Eu virei feito uma onça gritando com ele em inglês “what the fuck are you doing???” mas ele nem sequer olhou pra mim, era como se eu não estivesse mais lá, enquanto os amigos dele davam gargalhadas. Eu fiquei indignada, e minhas amigas tiveram que me levar pela mão pra longe dali. Minha vontade era de virar a mão na cara dele, mas quem sabe o que um imbecil desses poderia fazer? É inadmissível que a gente tenha que viver com medo de ser assediada na rua e ainda por cima viver com medo de revidar porque o troglodita pode ainda por cima te agredir.

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Eu era criança, uns seis anos. Nos almoços de família, o marido da minha tia avó sempre me chamava pra “ver televisão” no quarto com ele, de porta fechada. Eu e mais três primas também pequenas. Às vezes juntas, às vezes uma de cada vez. Nunca contamos isso pra ninguém e, crescidas, nunca falamos sobre o assunto, é como se nunca tivesse acontecido. Por medo e culpa, claro. E ainda tenho que aguentar minha mãe dizer que ele era “doido comigo” quando eu era criança, ela nem desconfia. Ele sofreu uma isquemia e, atualmente, é alimentado por sonda, não consegue andar nem falar. Quando, raramente, me encontro com ele, ele pega forte na minha mão e fica me olhando com os olhos tristes cheios de lágrimas, como se estivesse pedindo perdão. Eu quero mais é que ele queime no inferno.

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eu devia ter un 9 anos. Fui dormir na casa da minha avó com os meu irmão, dois primos e uma prima. Minha avó arrumou uma grande cama na sala para todos. Ela também ia dormir com a gente. Meu primo mais velho, devia ter uns 10 anos. deitou do meu lado. No meu da noite, acordei assustada com ele me molestando. Fiquei paralisada, em choque. Não sabia se o que acontecia era real ou minha imaginação. Até o ano passado, não tinha contado isso para ninguem. Quando contei para a minha mãe, ela ficou horrizada e me disse que nunca tinha entendido uma fala da mãe desse meu primo há muitos anos atrás:” sempre tem um primo para iniciar” Essa mulher tinha ciúmes da minha mãe e muita raiva por ela ter tido a primeira neta mulher, e ela tinha tido um menino. Não falo com essa parte da família há muitos anos, e o que mais me doi é saber que fui marcada pelo resto da minha vida a mando de uma outra mulher.

Ana

Aos 16 anos, fui estagiar em uma grande empresa. Em menos de uma semana espalharam a notícia de que eu era amante de meu supervisor só porque ele era gentil comigo. Durante meu curso de Engenharia Elétrica, fui assediada por três professores. Um tentou me beijar no laboratório onde eu trabalhava, outro me enganou sobre uma festa da faculdade para me levar para um lugar ermo e o terceiro me convidou para ir à casa dele porque a mulher dele estava viajando. Um quarto professor me disse: “O que você está fazendo aqui? Lugar de mulher não é na engenharia.” Eu não reagi a nenhuma destas situações porque achava que “era normal” e “culpa minha”. Me formei e hoje trabalho na profissão que escolhi. Li sobre feminismo e descobri que não é normal, não é culpa minha. Ofereço minha voz para o grito pedindo mudança.

Amy

Hoje tenho 40 anos e 3 anos de divórcio do único homem que conheci na vida. Ele me assediou com 11 anos de idade, era meu vizinho e colega de escola, e 7 anos mais velho que eu. Ele com 18 anos me “cercava” na volta da escola para ter conversas sobre menstruação, sobre se eu sabia o que era sexo, se minha mãe já havia me levado ao médico, conversas completamente inapropriadas para a minha idade. E aos 11 anos, quando minhas amigas começaram a beijar (provavelmente um “selinho” num coleguinha de sala), ele me deu um beijo adulto: de língua, saliva e mão no peito. Aos meus 14 anos (ele com 21) começamos oficialmente a “namorar” – e logo depois a transar. Ele me dominava completamente. Afastou-me de meus pais, meus amigos, roubou minha infância e minha vida. Eu só conseguia ver esse homem na minha frente. Aos 18 engravidei. Ele prontamente propôs um aborto – se “eu” quisesse, claro. Levou-me ao médico, conseguiu o dinheiro, conseguiu o lugar, levou-me e buscou-me. E uns 2 meses depois, terminou comigo. Seis meses depois, voltou a me procurar, propondo noivado, casamento, pois não conseguia viver sem mim. Tem uma palavra em inglês para isso: enticement – persuasão. Eu aceitei. Dois anos depois de nosso casamento, ele sofreu uma denúncia de pedofilia da filha de seu padastro, de quando ele morava na casa da mãe. Ele chorou muito, inclusive na frente do padastro, disse que nunca aconteceu, que ela estava errada, e algum tempo depois, a coisa tomou outro rumo, ela disse que se “confundiu”. Durante nosso casamento, fiz muita coisa que não queria, mas para agradá-lo. Sexo no carro, no cinema, em locais públicos, de várias maneiras, muitas delas degradantes. Eu sentia uma certa ressaca moral depois, mas, hey, ele era meu marido, não? Eu não estava sendo imoral, apenas atendendo aos desejos do meu homem, afinal, dentro de 4 paredes, tudo pode… Levei muito tempo para ter coragem de engravidar. Já tínhamos 10 anos de casados quando engravidei de uma menina, amor da minha vida. A partir daí, nosso casamento ruiu por completo. Acho que como ele deixou de ser o centro de minhas atenções – e desde o incidente da filha do padastro meu interesse nele foi diminuindo, culminou no momento em que ele saiu de casa ha 3 anos atrás. Hoje eu vejo tudo muito diferente. Tenho 40 anos e uma filha. Eu tinha dois anos a mais do que ela tem hoje quando um rapaz de 18 anos me beijou de forma adulta e lasciva. É nojento e precoce, e muito subjugante… Não é normal, e é um abuso, pois sempre haverá o predomínio do homem. É desigual, desequilibrado. Hoje sinto que fui abusada. Mesmo durante o casamento, mesmo com a moral baixa, eu nunca me senti assim, sempre pensei que tudo o que eu fiz, eu fiz consciente e fiz porque quis. Hoje sinto que fui abusada pois as coisas que fiz não foram conscientes. Eu era controlada. E era cega. Mas agora eu vejo, e não gosto do que vejo. Não gosto de como me sinto. E não vejo futuro para mim. Sinto que estou “estragada” e que nunca mais n a minha vida terei um outro relacionamento, pois não confio em ninguém e não consigo dar valor a homem nenhum. Estou com raiva deles.

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Aos 11 anos sofri assédio sexual do meu próprio pai. Ele me disse que eu ficava andando de camisola pela casa e isso deixava ele excitado. Ele disse isso quando estávamos indo para o cinema. Isso me assusta até hoje, mas na época me aterrorizava. Até hoje não consegui superar de verdade e tenho vontade de chorar.