1. Chegar aos 12 anos e ficar perplexa e sem perceber o motivo pelo qual homens que me eram estranhos, de repente falavam para mim na rua. Pensando inclusive na 1ª vez, que poderia ser alguém que conhecesse um dos meus pais ou a mim até olhar para a sua cara e ver que não. Aliás, no início nem estava a perceber que se dirigiam a mim porque se não os conhecia, não compreendia porque falavam para mim se nunca antes o tinham feito. Quando cheguei a casa contei muito admirada à minha mãe e disse-lhe que achava mal e que não tinham qualquer direito de o fazer, até porque eu não percebia o porquê de o fazerem em primeiro lugar. Eu sentia-me e sinto-me a mesma pessoa de sempre.
2. Estar a conversar com uma amiga descontraidamente e ter um estranho a fazer barulho ou a dizer algo completamente despropositado pela “diversão” de assustar ou incomodar, mostrando completo desrespeito pela liberdade de duas pessoas estarem calmamente a passar um bom momento.
3. Ir na rua descontraída a aproveitar um belo dia de sol, ou de chuva, e de repente ouvir um comentário sobre a minha aparência.
4. Ser seguida até ao prédio porque um estranho me achava “gira”, escapando com algum à vontade mas ficando nervosa por sair à rua descontraidamente durante algum tempo.
5. Ter uma pessoa próxima, também mulher, ser perseguida no metro ao ponto de ter que chamar alguém e ser finalmente liberta da situação perigosa em que se encontrava e que ainda hoje a afecta.
6. Ser sempre incomodada se o grupo com quem que estiver for constituído apenas por raparigas.
7. Não vestir sempre o que me apetece se souber que tenho que ir sozinha a algum sítio longe de casa ou de uma zona mais confortável.
8. Aos 16 anos ter passado o ano inteiro sem mergulhar na água do mar, mesmo estando na praia, só porque sentia que podia ter alguma gordura a mais. Outras passaram mais tempo assim.
9. Ir na rua com familiares, mãe ou avós, e ser incomodada por “piropos”, que “inofensivos” (nunca o são) ou não, são sempre incómodos e uma completa falta de respeito para com as pessoas presentes além de mim própria (o que por si só já é péssimo).
10. Evitar passar em certos sítios onde estão grupos de rapazes ou homens a observar quem passa para não ter que ouvir comentários indesejados relativamente ao que só a mim diz respeito.
11. Ter grandes e estimadas amigas chamadas de nomes que não deveriam ser aplicados a mulher alguma só porque tiveram muitos namorados ou gostam de se vestir como querem.
12. Mulheres da família exigirem de nós que aprendamos a cozinhar ou a limpar por sermos “raparigas”, o que levou a uma óbvia recusa pelo que não voltaram a insistir. Mas o receber este tipo de comentário e na nossa própria casa é horrível.
13. Podia passar anos a enumerar situações e nem assim as conseguiria pôr todas aqui. Quando se chega à adolescência, percebe-se que o mundo se torna desconfortável e que não temos a liberdade que gostaríamos ou a que estávamos habituadas. Temos que pelo menos lutar mais por ela e é triste sentir-mo-nos ameaçadas ou assediadas só por termos um sexo diferente entre as nossas coxas, como se isso fizesse alguma diferença.

























